segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ir e voltar

Ao ver uma entrevista de David Fonseca (um dos meus músicos de eleição) ao programa Contentor 13 (que podem ver aqui - clicar para abrir link), houve uma parte que me chamou a atenção.

Passo a citar:
"(...) Mas eu acho que inspiração tem muito pouco a ver com estas coisas. A inspiração é tida na sua definição como uma espécie de um acto divino, em que uma pessoa olha para uma espécie de uma luz, que nos traz uma espécie de elevação. Eu acho que fazer música é muito ao contrário. É como descer a um poço, é um acto muito mais interior. Não é um acto muito de elevação ou de olhar para cima, mas muito mais de olhar para dentro e descer a um sítio que às vezes é muito escuro. (...) Agora, não é fácil descer a esse sítio. Eu acho que é preciso um equilíbrio emocional muito grande para conseguir ir lá e voltar."

Identifico-me por completo com estas palavras. Ser músico, ser compositor, não é olhar para cima, é olhar para dentro. É mergulhar nos nossos pensamentos mais profundos, nas nossas dores mais escondidas, nos nossos desejos mais secretos. É irmos buscar aquilo que evitamos no nosso dia-a-dia. E não, não é fácil ir lá ao fundo, porque muitas vezes vamos enfrentar coisas com as quais não sabemos lidar. E podemos ficar tão mergulhados nessas ideias, que pode ser difícil sair de lá. Falo por experiência própria. Numa determinada fase da minha vida, andava tão no fundo do poço que me era muito fácil escrever e compor. Só que depois não tinha o equilíbrio emocional necessário para sair dessa bolha e permitir-me viver o dia-a-dia. Então andei cada vez mais no fundo... Já não conseguia vir à tona... Até que um rasgo de lucidez me fez perceber que tinha que sair dessa onda. E, para o conseguir, sabia que uma das coisas que tinha que mudar era a música: tinha que deixar de compor.

Estive anos sem compor. Voltei a fazê-lo no Verão passado. Precisava de encarar fantasmas, de enfrentar medos, de conseguir dizer o que me ia na alma e que não conseguia dizer a quem de direito. Mas fi-lo com a consciência que não poderia deixar que essa descida ao fundo do poço fosse mais do que momentânea. Aprendi a, tal como o David Fonseca, conseguir ir lá e depois voltar.

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